“Tão perto e tão distante”.
Acredito que a frase possa representar o que a tecnologia possibilita, hoje em
dia, às práticas sociais de quem se aventura à navegação pelo infinito oceano
da web.
A tecnologia, enquanto ferramenta
de prática social na qual se constitui hoje, nos possibilita uma proximidade,
apesar de distância física. Acredito que isso ressignifica não só práticas
sociais como também laços familiares e relacionamentos. Uma amiga mandou a
única filha, de 16 anos, para Austrália, por 6 meses, para um intercâmbio. No
dia do aniversário da menina, liguei para consolar a amiga, que eu julgava
estar arrasada de saudades. Ela estava ótima. Falava com e via a menina quatro
ou cinco vezes por dia.Tomava jantava com a menina todos os dias. Ela e o
marido jantando e a menina com o celular na cestinha da bicicleta a caminho da
escola, já no dia seguinte ao nosso aqui no Brasil e, muitas vezes, só
autorizava a “balada” se a filha entrasse com a câmara do celular ligada para
os pais verem em que ambiente ela estava, quem eram as pessoas que frequentavam
o lugar, que idade tinham, o que consumiam etc. Minha amiga acreditava que,
cercada de tecnologias como estava, a menina era mais monitorada que no
ambiente familiar.
Lidar com datas comemorativas,
reuniões familiares, compromissos sociais e profissionais hoje em dia também já
exigem de nós novos comportamentos. A memória, a agenda, o álbum de fotografias
também não são mais os mesmos. E eu não preciso deixar de comprar de uma camisa
para o marido, por não saber se ele vai gostar. Uma fotografia e uma mensagem
de celular resolvem o problema, assim como eu não preciso mais ficar perdida no
estacionamento do shopping, sem saber em que andar deixei o carro. Uma foto da
localização na parede do estacionamento resolve o problema.
A tecnologia existe. A demanda
também. A questão é o tempo que levamos para incorporar algumas práticas em
nossas vidas. Em algumas situações me vejo como no filme “Helpdesk”, sem saber
de onde começar. Em outras, penso como vivemos sem uma determinada facilidade
tecnológica. E em outras ainda, sinto medo de ter todas essas possibilidades na
mão e de não saber o que fazer com elas. Algo como o novo dono do livro de
areia que quis tê-lo, mas, ao mesmo tempo teve medo.
Até bem pouco tempo costumava
levar câmera fotográfica a eventos, mesmo que com o celular na bolsa. Penso que
isso revela que além da questão do domínio das ferramentas tecnológicas, nós
que não somos nativos digitais temos ainda o desafio de conhecer as
possibilidades que a tecnologia nos oferece. Possibilidades estas que, muitas
vezes carregamos na bolsa sem saber.
Conforme Paiva (2010), algumas
esferas sociais levam mais tempo para incorporar as tecnologias, não por não
disporem delas, mas por questões culturais. Ela exemplifica a escola, cuja
parte administrativa é informatizada, mas a sala de aula não. E pior, o
professor também não, pois hoje em dia já não se pode acusar as redes de mal
equipadas tecnologicamente, quando os alunos possuem suas próprias tecnologias
portáteis. Outro problema relacionado são as restrições a determinados usos,
como celulares, redes sociais etc. revelando uma visão restritas destas
ferramentas e de suas possibilidades de uso pedagógico.
Retomando uma das ideias de Paiva
(2010), acredito que muito da lentidão com que muitos de nós incorporam a
tecnologia em suas práticas sociais, deve-se ao fato de ainda vivenciarmos
(sobretudo na educação) a distinção entre espaços informatizados e espaços não
informatizados. Penso que essa separação (falsa separação) atrasa o nosso
reconhecimento da tecnologia que anda conosco, pendurada no pulso, dentro da
bolsa, acoplada ao carro, em pontos públicos da cidade etc.
PAIVA, V. L. M. O. A tecnologia
na docência em línguas estrangeiras: tensões e convergências. In: Lucíola
Licínio de Castro Paixão Santos. (Org.). Convergências e tensões no campo da
formação e do trabalho docente. Belo Horzionte: Autêntica, 2010, v. V, p.
595-613.
Disponível em
< http://www.veramenezes.com/endipe.pdf>
Acesso em 05/11/12.
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